O caso aparece em uma apresentação de auditoria feita por médico do Sistema Nacional de Auditoria da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Na competência 06/2024, em sete pacientes diferentes, foram emitidas duas AIH para cada um. Uma com prostatovesiculectomia radical em oncologia. Outra com linfadenectomia retroperitoneal em oncologia. As cirurgias foram realizadas. A equipe estava lá. O paciente foi tratado. E o motivo alegado para emitir a segunda AIH foi justamente que não havia compatibilidade para apresentar os dois procedimentos como sequenciais.

A saída que parecia lógica era exatamente a armadilha

A lógica de quem lançou é compreensível: se o sistema não aceita os dois procedimentos juntos na mesma AIH, então separa em duas. O problema é que existe regra condicionada que faz o caminho oposto do esperado — ela condiciona a rejeição da AIH quando há duplicidade na mesma competência de processamento e determinados procedimentos aparecem como principais entre essas AIH. Ou seja: a tentativa de contornar a incompatibilidade não gerou uma AIH aprovada e outra rejeitada. Gerou risco para as duas.

Analista revisando lancamentos de procedimentos hospitalares
Sete pacientes, catorze AIH, uma regra que ninguém tinha lido.

Repare no que esse caso não é. Não é fraude. Não é procedimento desnecessário. Não é falha clínica. É uma equipe de faturamento tentando resolver um impasse técnico com a ferramenta que tinha em mãos, sem acesso claro à regra que governava aquela combinação específica de códigos naquela competência específica. Sete pacientes tratados. Sete oportunidades de faturamento comprometidas pelo mesmo motivo, no mesmo mês.

O erro não estava na cirurgia. Estava a três telas de distância, numa tabela de regras que quase ninguém abre antes de fechar a competência. Análise TabSUS

O que torna esse tipo de perda tão difícil de enxergar

Um caso isolado de AIH rejeitada some no meio do fechamento. Sete casos do mesmo tipo, na mesma competência, formam um padrão — mas só se alguém olhar os sete juntos. E é exatamente isso que a rotina de faturamento raramente permite: o analista fecha a competência, envia, e parte para a próxima. O retorno chega semanas depois, no meio de outras dezenas de pendências, sem agrupamento por causa. O padrão existe no dado, mas não existe na tela de ninguém.

Pior: se a causa não é identificada, ela se repete. O mesmo cirurgião faz a mesma combinação de procedimentos no mês seguinte. A mesma equipe emite as mesmas duas AIH. O que era uma perda pontual vira uma perda recorrente, competência após competência, até que alguém finalmente cruze os dados e pergunte por que aquele procedimento específico nunca aparece aprovado.

Do caso isolado ao padrão visível

Quando a produção é organizada por CNES e por competência, algumas perguntas ficam possíveis de fazer com regularidade. Aquele procedimento aparece na produção aprovada dos últimos doze meses? Ele some em determinados meses e reaparece em outros? A quantidade apresentada bate com o volume que a equipe assistencial diz ter realizado? Nenhuma dessas perguntas responde sozinha o motivo da rejeição — mas todas apontam onde vale a pena abrir o prontuário e conferir.

O TabSUS organiza dados públicos de produção por CNES e competência para tornar esse tipo de comparação viável na rotina, em vez de depender de um levantamento especial toda vez que surge uma suspeita. A leitura da regra aplicável, a análise do caso e a decisão sobre a conduta continuam sendo trabalho de quem entende de faturamento e auditoria. O TabSUS é uma ferramenta privada de análise de dados públicos, sem vínculo com o Ministério da Saúde, o DATASUS ou qualquer órgão de governo.

Perguntas frequentes

Por que uma AIH pode ser rejeitada por duplicidade?

Existe regra condicionada no SIGTAP que condiciona a rejeicao da AIH quando ha duplicidade na mesma competencia de processamento e determinados procedimentos aparecem como principais em mais de uma AIH do mesmo paciente.

O que fazer quando dois procedimentos nao sao compativeis como sequenciais?

Emitir uma segunda AIH nao resolve e pode causar a rejeicao de ambas. A conduta correta depende da regra especifica do procedimento e deve ser verificada no SIGTAP e nos manuais tecnicos vigentes para a competencia.

O TabSUS valida a AIH antes do envio?

Nao. O TabSUS le dados publicos de producao ja processada, por CNES e competencia. Ele ajuda a identificar padroes e variacoes que merecem auditoria interna, mas nao substitui a conferencia previa nem valida remessas.