Um estudo publicado na Revista Mineira de Enfermagem comparou a glosa técnica de material e medicamento em dois hospitais. No primeiro, foram R$ 2.305,61 em nove prontuários — 2,28% do total analisado. E todos os nove tinham relatório técnico registrado, o que significa que o valor podia ser contestado por recurso. No segundo, foram 43 prontuários glosados, somando R$ 31.181,14, ou 17,82%. Desse total, R$ 3.096,13 correspondiam a itens sem qualquer registro em prontuário. Sem registro, não há recurso. Sem recurso, o valor vira perda.

A diferença não estava no atendimento

Os dois hospitais atenderam pacientes. Os dois usaram material e medicamento. Os dois tinham equipes de enfermagem trabalhando. O que separou um resultado de 2,28% de um resultado de 17,82% não foi qualidade assistencial, porte, região ou tecnologia instalada. Foi a consistência do registro — e a existência, ou não, de alguém acompanhando isso antes que virasse número fechado.

Grafico de acompanhamento mensal de faturamento hospitalar
Oito vezes mais perda, pelo mesmo tipo de falha, entre dois hospitais.

O estudo aponta ainda algo mais desconfortável: o cruzamento de dados revelou procedimentos que foram realizados sem terem sido prescritos. Isso não é só perda de faturamento. É indício de uma cultura em que o fazer se descola do registrar — e, no faturamento, o que não foi registrado simplesmente não aconteceu.

Uma perda de 2% se administra. Uma perda de 18% se sustenta com dinheiro que deveria estar em outro lugar. Análise TabSUS

Como uma perda pequena vira um rombo grande

Tome o exemplo do curativo grau II, analisado no mesmo estudo. Cada prescrição registrada agrega um valor específico à fatura hospitalar — um valor de dezenas de reais, com limite mensal por paciente. Isoladamente, parece irrelevante demais para justificar atenção. Multiplique por curativos diários, por dezenas de leitos ocupados, por doze competências. O número deixa de ser irrelevante em algum ponto entre o segundo e o terceiro mês — e ninguém percebe exatamente quando, porque ninguém está somando.

É esse o mecanismo do rombo silencioso. Ele não chega de uma vez, com uma fatura grande rejeitada e um telefonema da direção. Ele chega em parcelas pequenas, mensais, cada uma pequena o bastante para não disparar alarme, e todas somadas grandes o bastante para pressionar o caixa no fim do ano. Levantamentos de mercado apontam perdas médias entre 3% e 8% do faturamento hospitalar com glosas. Um case divulgado por consultoria descreve um hospital filantrópico de 180 leitos que convivia com glosa crônica acima de 20% até reestruturar o processo.

A pergunta que muda o jogo não é quanto, é por quê

Saber que o hospital teve determinado valor glosado no mês é um sintoma, não um diagnóstico. O número isolado não distingue falha de codificação de incompatibilidade de regra, não revela se um tipo específico de procedimento concentra metade do volume, e não indica se o problema está crescendo ou estabilizando. A diferença entre um hospital que reduz perda progressivamente e um que convive com o mesmo nível todo mês quase sempre está no acompanhamento por causa, e não no total.

O TabSUS organiza dados públicos de produção por CNES e competência, permitindo acompanhar valores enviados, aprovados, rejeitados e não processados ao longo dos meses, com comparativo mensal e valor médio por AIH. Isso transforma o total em série — e série é o que permite ver se algo está piorando antes do fechamento do ano. A identificação da causa, o recurso e a correção continuam sendo trabalho da equipe de faturamento e auditoria. O TabSUS é uma ferramenta privada de análise de dados públicos, sem vínculo com o Ministério da Saúde, o DATASUS ou qualquer órgão de governo.

Perguntas frequentes

Por que a ausencia de registro em prontuario gera perda definitiva?

Quando ha registro tecnico, o valor glosado pode ser contestado por meio de recurso. Quando nao ha registro algum, nao existe documento para sustentar a contestacao, e o valor tende a ser absorvido como perda.

Qual e a media de glosa considerada normal no setor?

Levantamentos de mercado apontam perdas medias entre 3% e 8% do faturamento hospitalar com glosas. Indices cronicos acima de 20% costumam indicar processo estruturalmente quebrado, e nao casos isolados.

O TabSUS recupera glosa ou faz recurso?

Nao. O TabSUS le dados publicos de producao por CNES e competencia, permitindo acompanhar valores enviados, aprovados, rejeitados e nao processados ao longo dos meses. Recursos e correcoes sao trabalho da equipe de faturamento e auditoria.