Nos quatro artigos anteriores desta série, o padrão se repetiu sem exceção. Um leito de UTI que existe fisicamente mas não consta como leito habilitado. Sete AIH emitidas em duplicidade porque ninguém tinha lido a regra de compatibilidade. Uma sequência de procedimentos lançada em ordem que reduz o percentual recebido. Dois hospitais com a mesma falha de registro e perdas de 2,28% e 17,82%. Em nenhum desses casos o hospital que recebeu menos tinha estrutura pior.
O que separa os dois hospitais
A tentação natural é atribuir diferença de faturamento a diferença de porte, região, complexidade ou tecnologia. Essas variáveis existem e pesam. Mas elas não explicam por que dois estabelecimentos com o mesmo equipamento, a mesma equipe e o mesmo tipo de paciente apresentam médias por AIH distintas no mesmo procedimento. O que explica, na maior parte dos casos, é conhecimento: da regra vigente, do cadastro atualizado, e do próprio histórico de produção. Nenhum dos três custa investimento em obra.
Isso é, ao mesmo tempo, a má e a boa notícia. Má, porque significa que parte da perda vem de dentro, de algo que estava ao alcance da instituição e não foi feito. Boa, porque significa que a correção também está ao alcance — sem edital, sem obra, sem esperar habilitação nova.
Comparar seu CNES com outro parecido não é benchmarking de consultoria. É descobrir se você está deixando dinheiro na mesa por não ter olhado. Análise TabSUS
O dado já está publicado. Só não está organizado
A produção ambulatorial e hospitalar do SUS é divulgada publicamente pelo DATASUS, organizada por estabelecimento, procedimento e competência. Qualquer pessoa pode consultar. O obstáculo nunca foi permissão — foi trabalho. Extrair, converter, cruzar e comparar exige ferramentas técnicas, tempo e alguém que saiba operá-las. Na prática, isso significa que a comparação só acontece quando há um projeto específico, uma consultoria contratada ou uma auditoria em curso. Raramente acontece como rotina mensal, que é quando ela seria útil.
E há um limite honesto a respeitar nessa leitura. Comparar dois CNES mostra onde existe diferença, não a causa dela. Perfil de pacientes, complexidade dos casos e composição de serviços influenciam o resultado. Uma média por AIH abaixo da de hospitais semelhantes não prova erro — indica onde vale a pena investigar. Quem transforma indicação em conclusão está usando o dado errado do jeito errado.
Da comparação à decisão
O que muda quando essa leitura vira rotina não é o número em si, é o momento em que a pergunta aparece. Uma variação identificada na competência seguinte ainda pode ser investigada, corrigida no processo e evitada nos meses subsequentes. A mesma variação identificada um ano depois, numa auditoria, já se multiplicou por doze e virou histórico. É a diferença entre gestão e constatação.
O TabSUS organiza dados públicos de produção por CNES e competência, com resumo mensal de AIH, valores enviados, aprovados, rejeitados e não processados, comparativo mensal e módulos de benchmark que permitem observar produção de outros estabelecimentos a partir da mesma base pública. A análise da causa e a decisão sobre o que fazer continuam sendo trabalho de quem conhece o hospital por dentro. O TabSUS é uma ferramenta privada de análise de dados públicos, sem vínculo com o Ministério da Saúde, o DATASUS ou qualquer órgão de governo.
Perguntas frequentes
Os dados de producao de outros hospitais sao publicos?
Sim. A producao ambulatorial e hospitalar do SUS e divulgada publicamente pelo DATASUS, organizada por estabelecimento, procedimento e competencia. O desafio nao e o acesso, e a organizacao desses dados para comparacao.
O que o valor medio por AIH indica?
Ele indica quanto, em media, foi aprovado por internacao em determinado recorte. Comparado ao longo do tempo e entre estabelecimentos semelhantes, ajuda a identificar variacoes que merecem investigacao interna.
Comparar hospitais prova que existe erro em algum deles?
Nao. A comparacao indica onde ha diferenca, nao a causa dela. Perfil de pacientes, complexidade e composicao de servicos influenciam o resultado. A analise da causa cabe a equipe que conhece a operacao.